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O princípio do tradutor nativo

Embora as pessoas costumem pensar na tradução como o ato de traduzir algo do próprio idioma para um idioma estrangeiro, o mercado de tradução profissional funciona quase sempre no sentido inverso. No mercado internacional, existe uma regra que as agências de tradução costumam respeitar à risca: toda tradução é feita sempre por tradutor falante nativo da língua de chegada e não da língua de partida. Esse princípio é seguido à risca não porque foi imposto por alguém, mas porque é considerado regra de qualidade em traduções. Isto porque se supõe que um tradutor nativo da língua de chegada terá mais desenvoltura para encontrar soluções de tradução, será mais criativo, terá mais conhecimentos idiomáticos e poderá, por isso mesmo, elaborar traduções mais naturais e fáceis de ler, produzindo a impressão de naturalidade e fluidez, como se texto não tivesse sido traduzido, mas sim escrito na própria língua de chegada.

Ora, se um tradutor brasileiro de inglês/português domina o idioma inglês, por que não se espera dele traduções português/inglês com a mesma qualidade que traduções inglês/português? A reposta: esse tradutor foi educado e/ou viveu a maior parte de sua vida na cultura do Brasil e aprendeu o inglês como língua estrangeira, depois de ter formado sua consciência afetiva (e todo um universo de conceitos e associações) tendo por base a língua portuguesa; por isso, ele terá menos desenvoltura ao escrever em inglês que ao escrever em português. Se para um tradutor nativo já é difícil escrever uma tradução com fluidez e naturalidade (sem parecer truncado), imagine quando o tradutor não é nativo e escreve em uma língua que não é a sua língua materna…

Obviamente, há casos em que não é tão fácil determinar qual é a língua materna do tradutor. Isso se aplica, %por exemplo, a tradutores perfeitamente bilíngues, criados e educados ao mesmo tempo em duas culturas, dois idiomas, e que aprenderam a formar conceitos e expressar sensações com igual desenvoltura nesses dois idiomas. A questão do bilinguismo, porém, é muito complexa, e muita gente que se acha bilíngue tem dificuldade de expressão em uma ou ambas suas “línguas maternas”.

Enquanto isso, no Brasil, o princípio do tradutor nativo é amplamente ignorado, a não ser por agências de tradução voltadas para o mercado internacional. Na habilitação de tradutores públicos, por exemplo, os profissionais são habilitados para ambas às direções: de e para o idioma estrangeiro (mas o preço das versões costuma ser maior que o das traduções). Há, inclusive, tradutores brasileiros que só trabalham com traduções português/inglês. E mais que isso: no Brasil, o tradutor que diz que não faz traduções para um idioma estrangeiro corre o risco de ser considerado incompetente e ouve coisas assim: “Ora, se você é tradutor e domina o inglês, por que não traduz textos para o inglês, mas somente do inglês?”. Cabe ao tradutor paciente explicar o porquê e, se realmente não estiver confortável ao fazer versões, não aceitar a proposta de serviço. (Fabio M. Said)